A proximidade do Dia dos Pais, celebrado no segundo domingo de agosto, convida a uma reflexão sobre a representação e o papel masculino na criação dos filhos. Enquanto a maternidade domina o cenário de livros e manuais sobre desenvolvimento infantil, a paternidade, com suas complexidades e desafios, parece ocupar um espaço secundário. Por que, em pleno século XXI, a literatura parental ainda é majoritariamente escrita por mulheres e o pai segue como um coadjuvante?
O livro “Enquanto ele não dorme”, do autor Diego Domingues, oferece um olhar íntimo e honesto sobre essa jornada, distanciando-se do ideal romantizado. A obra, organizada em fragmentos que narram os primeiros meses de vida do filho, aborda a privação de sono, o desespero e a solidão, além de revisitar a relação do autor com seu próprio pai.
A honestidade de Domingues, que desafia o mito do “amor instantâneo” ao escrever “Não é fácil amar de imediato. E nem precisou ser”, ecoa uma verdade pouco discutida. A obra, ao retratar a paternidade em suas nuances mais difíceis, como o cansaço extremo e a busca por um novo significado, lança luz sobre a necessidade de mais narrativas masculinas sobre o tema.
A lacuna da perspectiva masculina na literatura parental
A predominância de autoras femininas na literatura de criação de filhos não é um acaso, mas um reflexo de dinâmicas sociais e culturais, como explica a psicóloga, psicanalista, escritora e especialista em Psicanálise Clínica Com Crianças e Adolescentes, pela PUC Minas, Maria Bruna Mota:
“A cultura do patriarcado, que ainda gera influência, impõe lugares definidos para homens e mulheres. Ao homem é exigido o lugar de provedor, de forte, que não demonstra sentimentos.” —MARIA BRUNA MOTA
Essa imposição cultural, segundo a especialista, pode levar os homens a reprimir seus sentimentos, o que em psicanálise é chamado de recalque.
“Acredito que, pelas mesmas razões, os homens tendem a não explorar assuntos sensíveis, como a paternidade. As mulheres vão escrever a partir do lugar de mãe e mulher, o que tende a ser uma visão diferente do olhar masculino.” —MARIA BRUNA MOTA
Essa lacuna de perspectivas, como apontado pelo pediatra Dr. Antonio Carlos Turner, especialista em pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e pela Academia Brasileira de Medicina (ABM), empobrece o conteúdo e afasta os pais da leitura.
“O desenvolvimento infantil só tem a ganhar com a inclusão ativa de vozes masculinas. A paternidade é uma experiência única, que oferece uma lente diferente para entender e abordar as nuances do crescimento e aprendizado das crianças.” —ANTONIO CARLOS TURNER
Os desafios do pai moderno: Falta de tempo e sobrecarga
A rotina exaustiva do pai moderno, somada a pressões sociais, dificulta o acesso à informação de qualidade. O Dr. Turner observa que a falta de tempo é um fator crucial, fazendo com que muitos pais busquem dicas rápidas na internet, em vez de se aprofundarem em livros.
“A questão é que nem tudo o que circula é confiável. A era digital trouxe um novo desafio para o consultório pediátrico: pais armados com informações duvidosas da internet, sejam fake news ou crendices populares.” —ANTONIO CARLOS TURNER
Para a psicóloga e psicanalista Maria Bruna Mota, a solidão paterna é um reflexo de pressões como o retorno precoce ao trabalho. “Um pai que não dorme bem e vai trabalhar no dia seguinte pode chegar à exaustão”, explica. Ela ressalta que essa sobrecarga pode levar o pai a buscar “válvulas de escape no álcool ou no atraso para sair do trabalho”, um comportamento que prejudica o equilíbrio familiar.
A licença-paternidade, ainda em debate no Congresso Nacional, é um ponto crucial nesse cenário. Segundo o Dr. Turner, um aprendizado parental estruturado, que vá além do consultório, é um investimento inestimável, preparando os pais para desafios como a amamentação e o calendário de vacinação, que muitas vezes são discutidos às pressas.
O círculo vicioso da paternidade
A forma como um pai lida com a criação dos filhos está intimamente ligada à sua própria experiência. Segundo Maria Bruna Mota, o modo como a criança é amada “servirá como base para a sua constituição de sujeito, que a acompanhará por toda a vida.” A especialista aponta que um filho pode acabar repetindo os padrões paternos, a menos que consiga romper com as questões sintomáticas incorporadas de seus pais.
A necessidade de se “provar como homem”, uma cobrança social ainda muito forte, também molda a forma como os homens exercem a paternidade. “Um homem que demonstre sentimentos, goste de arte, que fale do que sente, é visto como menos homem”, afirma Mota. Essa pressão pode levar o pai a reproduzir aquilo que recebeu como orientação sobre ser homem, perpetuando o ciclo.
A predominância de autoras femininas na literatura sobre infância não é uma coincidência, mas o resultado de um longo processo histórico e cultural que definiu papéis sociais de gênero muito específicos. A boa notícia é que, com a mudança de mentalidade e a busca por narrativas mais diversas, o cenário está lentamente se transformando, abrindo espaço para que a paternidade seja abordada com a mesma profundidade e honestidade que a maternidade.
A história da sociedade ocidental, sobretudo a partir do século XIX, consolidou a ideia de que a mulher é a principal responsável pelo cuidado e educação das crianças. A maternidade, em muitos casos, se tornou a principal identidade feminina. Com isso, era natural que as mulheres escrevessem sobre o que era considerado sua esfera de domínio e experiência. A obra de Diego Domingues, “Enquanto ele não dorme”, é um exemplo contemporâneo dessa mudança, ao oferecer um olhar masculino e vulnerável sobre a paternidade.
Um novo caminho para a paternidade
Para que a paternidade deixe de ser um tema coadjuvante, é necessário um esforço coletivo. No campo literário, o Dr. Antonio Turner sugere que a literatura para as infâncias aborde os pais atípicos, pais LGBTQIA+ e pais de diferentes etnias.
“Essas narrativas não só enriquecem o universo literário, mas também ajudam a construir uma imagem mais completa e inclusiva da paternidade para as novas gerações.” —ANTONIO CARLOS TURNER
A psicanalista Maria Bruna Mota destaca que a entrada do pai na cena familiar depende da permissão da mãe ou de quem ocupa esse lugar para a criança, mas também do próprio pai querer.
“Quando essa dinâmica falha, possivelmente haverá sobrecarga para a mãe, que acabará por ficar mais no papel de mãe e se afastar do lugar de mulher.” —MARIA BRUNA MOTA
Para que essa mudança ocorra, é preciso que a sociedade, através da literatura, da mídia e dos diálogos cotidianos, comece a valorizar e a dar espaço para a paternidade em toda a sua complexidade, sem idealizações. O livro de Diego Domingues é um passo nessa direção, e a data comemorativa do Dia dos Pais é um lembrete de que o papel masculino na criação de filhos merece ser o protagonista de suas próprias histórias.
Tamyris Torres (Rio de Janeiro) é jornalista, psicanalista e escritora. Especialista em Comunicação Organizacional, é diretora na A Casa da Escrita, uma assessoria de imprensa e literária para autores.
A obra que acompanha o artigo é do artista Maxwell Alexandre.